Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



La Poderosa

Martha Medeiros

Assisti a “Diários de Motocicleta”, novo filme de Walter Salles, e gostei. Fiquei com saudade da época em que nosso sonho era correr o mundo.

De todos os sentimentos que um filme pode despertar, o de Walter Salles, Diários de Motocicleta, provocou um mim nostalgia. Saudade de uma época em que nosso sonho era correr o mundo com um amigo, sem muita grana, sem infra, apenas pelo prazer de pegar a estrada e quebrar a monotonia dos dias. Saudade também da nossa pureza, quesito indispensável para o desenvolvimento de uma ideologia. Saudade de quando podíamos nos surpreender com a gente mesmo, descobrir em nós um potencial e um sentido pra vida.

Walter Salles foi cuidadoso em não deixar que o filme ficasse panfletário. É tudo muito suave. As injustiças sociais encontradas pelo caminho não são chocantes ou perturbadora: são moderadas e poéticas. A plateia assiste ao amadurecimento de um jovem estudante de Medicina diante de uma América Latina hostil, mas não é convidada a se indignar, como acontecia quando assistíamos aos filmes de Costa Gravas, pra ficar só num exemplo. Sei que a comparação não se aplica: desde o início a intenção não era fazer uma obra política e engajada, apesar de o personagem principal ter sido quem foi. Então o filme se cumpre na serenidade, sem grandes sobressaltos na alma.

Ernesto Guevara e Alberto Granado são dois homens adoráveis e carismáticos, mas elejo La Poderosa como o personagem principal do filme – a moto que os acompanhou durante o percurso inicial da viagem. De certo modo, é do que todos nós necessitamos: de algo que nos ponha em movimento, de algo que nos retire do curso previsível da vida, de algo que nos encaminhe – ou desencaminhe. La Poderosa pode ser uma paixão, pode ser uma vocação, um sonho de infância. Veículos.

La Poderosa tem potência para a arrancada, mas não tem fôlego para chegar. La Poderosa é apenas um empurrão. Logo ela se desgasta e aí temos que tratar de fazer o resto da viagem com as próprias pernas. A escolha já foi feita: encontrar um rumo próprio, e não o rumo da boiada. Sair, em vez de ficar. Conhecer, em vez de esperar. Não é fuga, é encontro.

Todos nós temos uma La Poderosa abandonada nos fundos da garagem. Avariada, sem freios, encostada nas paredes do nosso passado, necessitando apenas de combustível e jeitinho para fazê-la pegar. Combustível, aliás, misto: gasolina batizada com fé.


Domingo, 16 de maio de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.